Acarretamento – relações semânticas entre sentenças

ACARRETAMENTO é uma das relações semânticas ou “nexos lógicos” que podem ser estabelecidos entre sentenças distintas. Nesse ponto, o acarretamento pertence aos interesses da “semântica gramatical”, entendida como o estudo do significado de frases e de expressões linguísticas complexas. Também é interesse da “semântica lexical” considerada especificamente como interface entre o léxico e a sintaxe.

Acarretamento é uma relação do tipo parte-todo, em que o significado de uma sentença qualquer contém em si o significado de uma outra sentença. Nesse caso, se diz que a primeira sentença acarreta a segunda (e que a segunda é acarretada pela primeira).

Na Semântica Formal, essa relação é caracterizada da seguinte forma: A acarreta B se e somente se a veracidade de A levar necessariamente à veracidade de B.

[Veja mais sobre acarretamento no vídeo abaixo]

 

Alguns exemplos

Uma frase como “João quebrou o vaso” acarreta necessariamente que “O vaso quebrou“, pois é impossível que a primeira frase seja verdadeira e a segunda seja falsa. A primeira frase contém em si o significado da segunda.

Note, porém, que o contrário não se dá. A frase “O vaso quebrou” não acarreta que “João quebrou o vaso“; é perfeitamente possível que “O vaso quebrou” seja verdadeira, mas que “João quebrou o vaso” seja falsa.

Note também que não é preciso saber se duas frases são efetivamente verdadeiras no mundo real. Mesmo sem sabermos efetivamente se “João quebrou o vaso“, podemos perceber que, se essa frase for verdadeira, a outra também seria necessariamente verdadeira.

Da mesma forma, é possível haver acarretamento mesmo entre frases que sabemos que são falsas. Um exemplo absurdo: “Os unicórnios são aves marcianas” é uma frase completamente falsa, mas ela acarreta “Os unicórnios são aves“, pois o conteúdo da segunda sentença está incluído no conteúdo da primeira. Seria impossível que a primeira frase fosse verdadeira e a segunda continuasse falsa.

Para que serve identificar as relações de acarretamento?

Primeiro, o acarretamento é uma propriedade semântica real que faz parte do conhecimento linguístico de qualquer falante da língua. Então, reconhecer a sua existência faz parte de qualquer descrição da linguagem.

Segundo, o acarretamento também serve como diagnóstico para identificar outras propriedades existentes na linguagem. Então, é uma ferramenta útil para auxiliar em outras descrições semânticas, sintáticas e morfológicas. Mas isso é um assunto para outro texto.

1964 – Verdades difíceis de aceitar

Já que o dia 31 de março se aproxima e, como ele, temos a repetição de polêmicas quanto ao que ocorreu em 1964, vamos a algumas verdades difíceis de serem admitidas:

1) Não houve golpe em 1964.

2) Houve sim ditadura militar: de 1968 a 1979 (a partir do AI-5).

3) A revolução de 1964 impediu a cubanização do Brasil e salvou milhões de vidas. Eu disse: MILHÕES. Os que foram derrotados em 1964 pertenciam a uma organização milita internacional que já havia assassinado mais de 100 milhões de pessoas no mundo e escravizado 20% da população mundial.

4) Mas também foi por culpa do regime militar que o Brasil passou a ter, a partir da década de 80, uma hegemonia de organizações criminosas disfarçadas de partidos políticos e uma hegemonia das ideias mais nefastas e idiotas do positivismo e do esquerdismo, que elevaram o Brasil ao status de país mais assassino do planeta Terra.

5) Houve crimes de tortura no regime.

6) Foram em quantidade muito muito muito menor do que os dados inflados dos torturados sem cicatrizes. 

7) Denunciar os crimes de estado praticados durante o regime militar (e durante qualquer regime) é uma obrigação intelectual.

8) Não mentir nem inventar crimes a mais nem exagerar os crimes também é uma obrigação intelectual. Foi o exagero e a mentira por parte de intelectuais que fez com que grande parte da população não acreditasse mais nessas narrativas.

9) A função das Forças Armadas é sim derrubar Executivo, Legislativo ou Judiciário que se tornem criminosos e anti-constitucionais. Essa sempre foi a função das Forças Armadas no Brasil e em qualquer país do mundo.

8) A função das Forças Armadas NÃO É governar.

9) Ao derrubar um Executivo, Legislativo ou Judiciário corruptos, a primeira obrigação das Forças Armadas é convocar novas eleições ou o equivalente para devolver o poder aos civis.

10) Quando as Forças Armadas não fazem (9), acabam gerando (2) e/ou (4).

Sobre idiotas e psicopatas

Psicopatas invadem escolas nos EUA para matar crianças, porque em escolas todo mundo (inclusive os seguranças) é proibido de portar armas.

Psicopatas invadem shows na França para matar infiéis, porque em show todo mundo (inclusive os seguranças) é proibido de portar armas.

Psicopatas invadem estações de ônibus e de metrô na China para matar dezenas de adultos e crianças, porque todo mundo é proibido de portar armas na China.

Psicopatas esfaqueiam dezenas de pessoas nas ruas da Inglaterra, porque todo mundo é proibido de portar armas nas ruas na Inglaterra.

Psicopatas fuzilam carros de transeuntes nas favelas no Brasil, porque todo mundo é proibido de portar armas no Brasil.

Psicopatas invadem escolas no Brasil para matar, porque em escolas todo mundo (inclusive os seguranças) é proibido de portar armas.

Quem quer fomentar ainda mais o desarmamento é ou um idiota que acredita no conto de fadas do Desarmamento ou um psicopata que faz isso, torcendo por outros massacres.

Psicopatas matarão de qualquer  jeito, ou com pistolas industriais ou com revólveres caseiros ou com facas ou com machadinhas ou com arco e flecha ou com coquetel molotov feitos com gasolina ou cachaça, com coisas que jamais poderão ser totalmente proibidas. E psicopatas sempre procurarão pelos alvos mais fáceis, mais indefesos, nos locais em que houver a maior concentração destes e em que houver a menor possibilidade de reação, para produzir o maior estrago possível. Se você quer facilitar a vida de psicopatas deixando centenas de crianças inocentes desprotegidas, você é um idiota ou é outro psicopata.

Semântica lexical (parte 2) – um pé na sintaxe

No texto anterior, falamos sobre o que é Semântica lexical. Esta pode ser o nome de uma área de estudos ou o nome de alguma teoria específica que lida com essa área. A característica principal dessa área de estudos é focar na descrição e análise de propriedades do significado das palavras, do vocabulário (léxico) de uma língua.

Vimos também brevemente alguns exemplos de teorias semântico lexicais, mas terminamos apontando que há outro tipo de estudo que também recebe o nome de Semântica lexical, mas que difere em muitas coisas dos outros estudos. E é disso que tratamos agora.

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Léxico, semântica e sintaxe

O que diferencia essa outra abordagem semântico-lexical é o fato de ela não se limitar apenas ao léxico e ao significado, mas ter uma relação com a sintaxe. Ou seja, trata-se de um tipo de Semântica lexical que é voltado para examinar como o significado das palavras determina aspectos da sintaxe das línguas humanas. Ou seja, como a ordem e a estrutura da sentença é determinada pelo significado das palavras contidas nela.

Por isso, essa abordagem recebe o nome de “Semântica Lexical” ou de “Interface entre sintaxe e semântica“.

Um tipo de fenômeno que exemplifica essa abordagem é a análise dos papéis  temáticos, que correspondem às funções semânticas exercidas pelor argumentos de um predicador, como o verbo. Há verbos que selecionam agentes e pacientes (ex: “João bateu em Pedro“), mas há outros verbos que selecionam argumentos com valores semânticos distintos, como experienciadores (“Maria gosta de João”), locativos (“ele mora em Curitiba“) etc. Essas diferenças na seleção dos argumentos é determinada pelas propriedades semânticas do verbo selecionador: um verbo com “gostar” não é compatível com um agente, mas apenas com um experienciador.

Outro exemplo de fenômeno na interface entre o léxico e a sintaxe são os casos de alternâncias verbais, como em “João quebrou os vasos” e “Os vasos quebraram“, em que há alteração sistemática no número de argumentos do verbo. Isso ocorre de modo regular com vários verbos como “quebrar”, “abrir”, “fechar”, mas não ocorre com diversos outros, como “ver”, “matar” (ou seja, não dá para fazer “O ladrão viu” a partir de “João viu o ladrão“, mantendo a interpretação de que “o ladrão foi visto“). A ideia, nesse caso, é que essas possibilidades e impossibilidades de alternância resultam de propriedades semânticas do verbo e dos argumentos selecionados. Por exemplo, uma hipótese possível e plausível (mas não a única) que isso decorra dos papéis temáticos que um verbo requer: verbos que pedem determinados papéis temáticos são compatíveis com determinadas alternâncias no número de argumentos e verbos que pedem outros papéis temáticos são compatíveis com outras alternâncias, etc. Em suma, propriedades semânticas determinando a sintaxe.

O que é Semântica Lexical? (parte 1)

A expressão “Semântica Lexical” pode se referir a uma área de estudos da língua (dentro da Linguística) ou pode se referir ao nome de uma teoria específica dentro dessa mesma área de estudos.

Como área do conhecimento, a Semântica Lexical indica qualquer tipo de estudo linguístico que foque no significado das palavras das línguas. O vocabulário de uma língua é chamado também de “léxico”, por isso uma semântica que estuda as palavras é chamada de “semântica lexical”. 

Isso significa que também existem semânticas que não são lexicais, ou seja, que estudam o significado nas línguas humanas, mas não estão voltadas especificamente para o significado das palavras, como a Semântica Formal, por exemplo.

[Antes de continuar a leitura, você também pode ver ou ouvir esse conteúdo em vídeo/áudio no Youtube.]

VÁRIAS TEORIAS DISTINTAS

O estudo do significado das palavras (semântica lexical) pode ser feito sob várias perspectivas diferentes. Por isso, existem várias teorias linguísticas distintas que lidam com essa área de estudos.

Semântica (histórica)

Por exemplo. A Semântica surgiu como uma disciplina independente dentro dos estudos linguísticos no final do século XIX, tendo como fundador o linguista francês Michel Bréal. E a abordagem defendida por Bréal era justamente um tipo de semântica lexical, que era voltado para o estudo das mudanças de significado que as palavras sofriam ao longo do tempo.

Era uma abordagem de caráter histórico ou diacrônico, que visava descrever as alterações de significado, classificar os tipos de mudança semânticas possíveis e descobrir as causas sociais e psicológicas de tais mudanças. Como era a única abordagem existente até então, Bréal a chamava simplesmente de “Semântica”.

Semântica Lexical Estruturalista

Outro exemplo de teoria linguística voltada para a semântica lexical surge no século XX, dentro de uma corrente teórica muito maior chamada Estruturalismo, que tratava de fenômenos linguísticos de diversas naturezas (fenômenos fonológicos e morfológicos, principalmente, mas também sintáticos e semânticos, em menor grau). A abordagem semântica criada pelo Estruturalismo era voltada para a descrição das propriedades e das relações de significado entre as palavras da língua na sincronia (ou seja, numa mesma época no tempo, sem preocupação histórica).

Quem já estudou algo sobre Estruturalismo e sobre Ferdinand de Saussure sabe da importância do conceito de sincronia e da visão de língua como um sistema em que os elementos estão inteiramente relacionados entre si. Relações como sinonímia, antonímia, hiperonímia, polissemia são apenas alguns exemplos dessas relações. Uma curiosidade: essa abordagem semântica dentro do Estruturalismo é chamada de “Semântica Lexical Estruturalista”, mas, muitas vezes, também é chamada simplesmente de “Semântica Lexical”, o que pode gerar uma confusão entre o nome da área de estudos e o nome de uma teoria semântico-lexical específica.

Semântica cognitiva

Outro exemplo de teoria linguística voltada para o léxico das línguas é a Semântica Cognitiva, que é voltada para estudar os processos de categorização linguística e de geração dos significados. Por exemplo, como é o processo através do qual uma língua ou comunidade junta vários elementos distintos sob a mesma categoria e dão a eles o mesmo rótulo, o mesmo nome, por exemplo, como consideramos, em português, que galinhas, águias e pinguins, apesar de toda a diferença entre si, são “aves”.

Em outros momentos, farei postagens sobre fenômenos semânticos específicos e sobre algumas dessas teorias citadas acima.

OUTRO TIPO DE SEMÂNTICA LEXICAL

Os exemplos acima não esgotam todas as teorias linguísticas que lidam com o significado, mas há ainda um outro tipo de Semântica Lexical que é bem diferente das citadas acima, que tem um perfil particular. Ela é lexical, mas possui um pé dentro da área dos estudos sintáticos. Vou falar sobre esse outro tipo de semântica lexical em outra postagem. Aguarde.

A idolatria à palavra “Ministério”

Como os países lidam com seus problemas? Digamos que, de repente, haja uma epidemia de… ahn… unha encravada na população. Em países mentalmente saudáveis, o governante usaria as estruturas administrativas já existentes para resolver o problema: o Ministério da Comunicação, se houver, para promover algumas campanhas de informação sobre o problema; o Ministério da Saúde para planejar algumas ações para reduzir a escala do problema. Se a situação fosse muito grave, o Ministério da Saúde poderia até criar um programa ou secretaria temporária para lidar com a questão.

Ah, mas isso é em países normais. Na República Federativa da Banânia, a coisa é bem diferente. A primeira e mais forte tendência de todo governante é criar imediatamente o Ministério da Unha Encravada. Destinar um orçamento permanente para a nova pasta. Conceder ao seu ministro Foro Privilegiado. Preencher dezenas de cargos de assessoria com aliados políticos do governante e do ministro. Realizar vários concursos públicos para prover funcionários para o novo órgão. Realizar licitação para a aquisição de carros de luxo para o transporte dos funcionários. E assim, quinze anos e onze bilhões de contos de réis depois, o Ministério da Unha Encravada ainda estaria lá como parte da estrutura perpétua do Estado, promovendo a justiça pedal para todos!

Mas eis que, vinte anos depois, é possível que um novo presidente olhe para tal ministério e pense: “Mas esse ministério tem poucas responsabilidades em comparação com os demais. Acho que ele poderia ser absorvido pelo Ministério da Saúde, sem prejuízo de suas funções. E ainda economizaríamos uma graninha dos impostos do povo.

 

O que aconteceria diante de tal iniciativa ousada de um presidente? Novamente, em um país mentalmente saudável, imediatamente os intelectuais diriam: “Ok, vamos examinar com calma a questão para ver se é realmente imprescindível a existência desse ministério ou se ele pode ser incorporado a outro.

Mas repito: isso é o que aconteceria em país normal. Em Banânia, os intelectuais estão ocupados demais promovendo a revolução para se preocuparem com essas bobagens burguesas como vida intelectual, verdade, ponderação, razão e responsabilidade com o dinheiro público.

Em Banânia, a reação imediata e estridente da maioria dos intelectuais é denunciar o terrível crime que estaria sendo cometido. Eles acusariam o governante de odiar os pés dos pobres! De espalhar o chulé pelas classes baixas! De querer que as pessoas percam seus pés devido à falta de higiene! De tentar fazer com que os podólogos morram de fome! De perseguição a quem tem fetiche sexual por pés! E de tentar instalar o sapatismo no país!

Isso acontece por vários motivos. Um deles é porque Banânia é um país laico. E como todo país laico, Banânia possui uma infinidade de deuses inventados pelos intelectuais, os profetas que devem liderar o povo à utopia onde mana leite e mel. Alguns dos deuses mais importantes da República Federativa de Banânia são os Ministérios, que ocuparam o lugar das antigas Musas das religiões clássicas. Parte essencial da atividade religiosa dos intelectuais laicos bananísticos é prestar culto e realizar sacrifícios humanos (ou seja, de carreiras humanas) aos deuses Ministérios, mais especificamente ao nome dos deuses dos Ministérios.

Arrependei-vos e crede no Ministério da Verdade e da Justiça Social!

Minicurso: Ideologia, Liberdade e Escola Sem Partido na educação brasileira

TÍTULO: “Ideologia, Liberdade e Escola Sem Partido na educação brasileira”.

INFORMAÇÃO: Apresentado no SEPESQ 2018 (Seminário de Pesquisa Estudantil em Letras), de 19 a 21 de novembro de 2018. Universidade Federal da Bahia (UFBA).

RESUMO: O minicurso discutirá a questão do direcionamento ideológico e político partidário na educação brasileira e os efeitos disso sobre a profunda crise educacional e intelectual pela qual o país tem passado. Para tanto, Continue lendo “Minicurso: Ideologia, Liberdade e Escola Sem Partido na educação brasileira”

Minicurso: Teoria da Gramática e Dialetologia: uma Introdução

TÍTULO: “Teoria da Gramática e Dialetologia: uma Introdução”.

INFORMAÇÕES: Apresentado no V CIDS – Congresso Internacional de Dialetologia e Sociolinguística, de 11 a 14 de setembro de 2018. Universidade Federal da Bahia (UFBA).

RESUMO: O minicurso trata da interação entre o arcabouço teórico da gramática gerativa, compreendida como uma teoria das gramáticas das línguas humanas, e as ciências da variação linguística, a dialetologia e a sociolinguística. O modelo de Princípios e Parâmetros permitiu  Continue lendo “Minicurso: Teoria da Gramática e Dialetologia: uma Introdução”

Notas sobre o resultado da eleição

Algumas notas sobre o resultado eleitoral de ontem:

1) É normal ficar triste, decepcionado, cabisbaixo por torcer muito para um candidato e vê-lo perder. Mas não é normal em absolutamente nada o desespero, a completa falta de noção e a reação desproporcional diante do fato de que, após ganhar quatro eleições SEGUIDAS, o seu partido não conseguiu ganhar a quinta. Há gente adulta chorando mais do que diante da perda de um pai ou mãe. Há adulta tendo crise diante de cenas de crianças brincando de polícia e ladrão. Há gente cogitando suicídio! Há gente propondo suicídio coletivo!!!

Isso não é discordância. Isso é histeria gerada por conviver e/ou admirar loucos. Não estou usando uma figura de linguagem. Falo de uma situação patológica de fato. Há estudos psiquiátricos sobre como a infiltração, em organizações e em movimentos sociais, de pessoas com patologias psicológicas graves, incluindo psicopatia, espalha pelas demais pessoas uma situação de histeria e irrealidade. 

2) A melhor maneira de superar os traumas (os reais e os imaginários) do regime militar é justamente chegarmos a um grau de maturidade em que seja possível ter um presidente de origem militar e um mandato normal (bom ou ruim, mas normal), em que as liberdades sejam preservadas. Qualquer pessoa normal deveria torcer por isso agora.

3) Mas há aqueles que, além de não torcerem por isso, são incapazes de aceitar se isso ocorrer. Há gente que vai entrar em crise e se tornar ainda mais histérica se nenhuma previsão apocalíptica se cumprir. Sabe por quê? Porque o receio de alguns é real, mas o receio de muitos outros é criado artificialmente, devido à repetição infinita de slogans. Eles não falam o que acreditam, mas passam a acreditar naquilo que repetem. Eles forjaram parte da sua identidade pessoal com base na ideia de que são o monopólio da bondade. Alguns deles sonham em poder se gabar de que foram vítimas de uma ditadura. Eles desejam um ditadura, mesmo que apenas um simulacro de ditadura, para poderem se sentir heróis. Quando não encontram uma possibilidade real de viverem esse sonho, projetam isso sobre qualquer situação banal. Uma mera discordância em uma conversa vira uma ato de “agressão”. Para essas pessoas, deparar-se com um governo normal (bom ou ruim) não é apenas uma constatação difícil. Seria uma ruptura traumática de sua identidade pessoal. Meu conselho: não se deixem cair nessa armadilha mental feita para imbecilizar as pessoas.

“A gramática não ‘estabelece’ a norma culta” – equívocos do livro “Preconceito Linguístico”

No famoso livreto Preconceito Linguístico: o que é, como se faz, Marcos Bagno critica os gramáticos por dizerem que “A Gramática normativa estabelece a norma culta“. Segundo Bagno, seria um absurdo dizer algo desse tipo, pois…

“não é a gramática normativa que “estabelece” a norma culta. A norma culta simplesmente existe como tal. A tarefa de uma gramática seria, isso sim, definir, identificar e localizar os falantes cultos, coletar a língua usada por eles e descrever essa língua de forma clara, objetiva e com critérios teóricos e metodológicos coerentes.” (Preconceito linguístico, 2007, p. 65)

No entanto, essa crítica de Bagno simplesmente não tem fundamento. O que Bagno faz é apenas se negar a reconhecer um uso bastante comum que o verbo “estabelecer” possui. Notem os exemplos abaixo:

Ex. 1: “Jacobus Cornelius Kapteyn estabeleceu as dimensões da nossa galáxia…” (Fonte: aqui)

Ex. 2: “Mustier (…) estabeleceu as dimensões da fraude depois de interrogar Kerviel durante toda a noite de sábado.” (Fonte: aqui)

Ninguém jamais imaginaria que essas frases significam que as dimensões da galáxia ou da fraude inexistiam antes de Kapteyn ou antes do interrogatório de Kerviel, tendo sido criadas por estes. O significado de “estabelecer” nesses exemplos não é o de “criar”, mas o “determinar” (no sentido de “descobrir”) ou “organizar e formalizar explicitamente” alguma informação.

O mesmo ocorre na frase criticada por Bagno acima. Quando os gramáticos dizem que “a gramática normativa estabelece a língua“, eles já estão dizendo exatamente aquilo que Bagno alega, contra eles, que seria a visão correta sobre o tema: a gramática define e identifica os usuários da linguagem culta e descreve os usos dessa linguagem de modo claro e objetivo.

É muito estranho que alguém como Bagno, que afirma celebrar a diversidade e variação lingüística, se irrite tanto com aquilo que é simplesmente um dos significados bastante comuns de um verbo como “estabelecer”.

Em suma, não há razão, portanto, na crítica feita por Bagno. O motivo real de seua crítica não é algum erro presente na declaração dos gramáticos, mas sim uma divergência que há entre Bagno e estes com relação a quais devem ser os critérios para identificar e descrever a linguagem culta . Para os gramáticos, a linguagem culta a basear a norma linguística deve ser encontrada na alta literatura, naqueles autores e obras cujo valor sobrevive ao teste do tempo. Para Bagno, ao contrário, a linguagem culta a servir de modelo de norma linguística deve ser encontrada no que ele chama de “língua culta real”, que é a linguagem das pessoas tidas como cultas na atualidade, o que, na prática, é simplesmente a linguagem de hoje das classes altas, ou seja, os modismos passageiros dos ricos e endinheirados, que estejam em posições mais altas da escala social. Por algum motivo estranho, Bagno considera que sua própria abordagem é mais democrática e mais popular e que, portanto, deve substituir completamente a abordagem “elitista e discriminatória” dos gramáticos. Mas isso é um tema para outro texto.