Acarretamento – relações semânticas entre sentenças

ACARRETAMENTO é uma das relações semânticas ou “nexos lógicos” que podem ser estabelecidos entre sentenças distintas. Nesse ponto, o acarretamento pertence aos interesses da “semântica gramatical”, entendida como o estudo do significado de frases e de expressões linguísticas complexas. Também é interesse da “semântica lexical” considerada especificamente como interface entre o léxico e a sintaxe.

Acarretamento é uma relação do tipo parte-todo, em que o significado de uma sentença qualquer contém em si o significado de uma outra sentença. Nesse caso, se diz que a primeira sentença acarreta a segunda (e que a segunda é acarretada pela primeira).

Na Semântica Formal, essa relação é caracterizada da seguinte forma: A acarreta B se e somente se a veracidade de A levar necessariamente à veracidade de B.

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Alguns exemplos

Uma frase como “João quebrou o vaso” acarreta necessariamente que “O vaso quebrou“, pois é impossível que a primeira frase seja verdadeira e a segunda seja falsa. A primeira frase contém em si o significado da segunda.

Note, porém, que o contrário não se dá. A frase “O vaso quebrou” não acarreta que “João quebrou o vaso“; é perfeitamente possível que “O vaso quebrou” seja verdadeira, mas que “João quebrou o vaso” seja falsa.

Note também que não é preciso saber se duas frases são efetivamente verdadeiras no mundo real. Mesmo sem sabermos efetivamente se “João quebrou o vaso“, podemos perceber que, se essa frase for verdadeira, a outra também seria necessariamente verdadeira.

Da mesma forma, é possível haver acarretamento mesmo entre frases que sabemos que são falsas. Um exemplo absurdo: “Os unicórnios são aves marcianas” é uma frase completamente falsa, mas ela acarreta “Os unicórnios são aves“, pois o conteúdo da segunda sentença está incluído no conteúdo da primeira. Seria impossível que a primeira frase fosse verdadeira e a segunda continuasse falsa.

Para que serve identificar as relações de acarretamento?

Primeiro, o acarretamento é uma propriedade semântica real que faz parte do conhecimento linguístico de qualquer falante da língua. Então, reconhecer a sua existência faz parte de qualquer descrição da linguagem.

Segundo, o acarretamento também serve como diagnóstico para identificar outras propriedades existentes na linguagem. Então, é uma ferramenta útil para auxiliar em outras descrições semânticas, sintáticas e morfológicas. Mas isso é um assunto para outro texto.

Semântica lexical (parte 2) – um pé na sintaxe

No texto anterior, falamos sobre o que é Semântica lexical. Esta pode ser o nome de uma área de estudos ou o nome de alguma teoria específica que lida com essa área. A característica principal dessa área de estudos é focar na descrição e análise de propriedades do significado das palavras, do vocabulário (léxico) de uma língua.

Vimos também brevemente alguns exemplos de teorias semântico lexicais, mas terminamos apontando que há outro tipo de estudo que também recebe o nome de Semântica lexical, mas que difere em muitas coisas dos outros estudos. E é disso que tratamos agora.

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Léxico, semântica e sintaxe

O que diferencia essa outra abordagem semântico-lexical é o fato de ela não se limitar apenas ao léxico e ao significado, mas ter uma relação com a sintaxe. Ou seja, trata-se de um tipo de Semântica lexical que é voltado para examinar como o significado das palavras determina aspectos da sintaxe das línguas humanas. Ou seja, como a ordem e a estrutura da sentença é determinada pelo significado das palavras contidas nela.

Por isso, essa abordagem recebe o nome de “Semântica Lexical” ou de “Interface entre sintaxe e semântica“.

Um tipo de fenômeno que exemplifica essa abordagem é a análise dos papéis  temáticos, que correspondem às funções semânticas exercidas pelor argumentos de um predicador, como o verbo. Há verbos que selecionam agentes e pacientes (ex: “João bateu em Pedro“), mas há outros verbos que selecionam argumentos com valores semânticos distintos, como experienciadores (“Maria gosta de João”), locativos (“ele mora em Curitiba“) etc. Essas diferenças na seleção dos argumentos é determinada pelas propriedades semânticas do verbo selecionador: um verbo com “gostar” não é compatível com um agente, mas apenas com um experienciador.

Outro exemplo de fenômeno na interface entre o léxico e a sintaxe são os casos de alternâncias verbais, como em “João quebrou os vasos” e “Os vasos quebraram“, em que há alteração sistemática no número de argumentos do verbo. Isso ocorre de modo regular com vários verbos como “quebrar”, “abrir”, “fechar”, mas não ocorre com diversos outros, como “ver”, “matar” (ou seja, não dá para fazer “O ladrão viu” a partir de “João viu o ladrão“, mantendo a interpretação de que “o ladrão foi visto“). A ideia, nesse caso, é que essas possibilidades e impossibilidades de alternância resultam de propriedades semânticas do verbo e dos argumentos selecionados. Por exemplo, uma hipótese possível e plausível (mas não a única) que isso decorra dos papéis temáticos que um verbo requer: verbos que pedem determinados papéis temáticos são compatíveis com determinadas alternâncias no número de argumentos e verbos que pedem outros papéis temáticos são compatíveis com outras alternâncias, etc. Em suma, propriedades semânticas determinando a sintaxe.

O que é Semântica Lexical? (parte 1)

A expressão “Semântica Lexical” pode se referir a uma área de estudos da língua (dentro da Linguística) ou pode se referir ao nome de uma teoria específica dentro dessa mesma área de estudos.

Como área do conhecimento, a Semântica Lexical indica qualquer tipo de estudo linguístico que foque no significado das palavras das línguas. O vocabulário de uma língua é chamado também de “léxico”, por isso uma semântica que estuda as palavras é chamada de “semântica lexical”. 

Isso significa que também existem semânticas que não são lexicais, ou seja, que estudam o significado nas línguas humanas, mas não estão voltadas especificamente para o significado das palavras, como a Semântica Formal, por exemplo.

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VÁRIAS TEORIAS DISTINTAS

O estudo do significado das palavras (semântica lexical) pode ser feito sob várias perspectivas diferentes. Por isso, existem várias teorias linguísticas distintas que lidam com essa área de estudos.

Semântica (histórica)

Por exemplo. A Semântica surgiu como uma disciplina independente dentro dos estudos linguísticos no final do século XIX, tendo como fundador o linguista francês Michel Bréal. E a abordagem defendida por Bréal era justamente um tipo de semântica lexical, que era voltado para o estudo das mudanças de significado que as palavras sofriam ao longo do tempo.

Era uma abordagem de caráter histórico ou diacrônico, que visava descrever as alterações de significado, classificar os tipos de mudança semânticas possíveis e descobrir as causas sociais e psicológicas de tais mudanças. Como era a única abordagem existente até então, Bréal a chamava simplesmente de “Semântica”.

Semântica Lexical Estruturalista

Outro exemplo de teoria linguística voltada para a semântica lexical surge no século XX, dentro de uma corrente teórica muito maior chamada Estruturalismo, que tratava de fenômenos linguísticos de diversas naturezas (fenômenos fonológicos e morfológicos, principalmente, mas também sintáticos e semânticos, em menor grau). A abordagem semântica criada pelo Estruturalismo era voltada para a descrição das propriedades e das relações de significado entre as palavras da língua na sincronia (ou seja, numa mesma época no tempo, sem preocupação histórica).

Quem já estudou algo sobre Estruturalismo e sobre Ferdinand de Saussure sabe da importância do conceito de sincronia e da visão de língua como um sistema em que os elementos estão inteiramente relacionados entre si. Relações como sinonímia, antonímia, hiperonímia, polissemia são apenas alguns exemplos dessas relações. Uma curiosidade: essa abordagem semântica dentro do Estruturalismo é chamada de “Semântica Lexical Estruturalista”, mas, muitas vezes, também é chamada simplesmente de “Semântica Lexical”, o que pode gerar uma confusão entre o nome da área de estudos e o nome de uma teoria semântico-lexical específica.

Semântica cognitiva

Outro exemplo de teoria linguística voltada para o léxico das línguas é a Semântica Cognitiva, que é voltada para estudar os processos de categorização linguística e de geração dos significados. Por exemplo, como é o processo através do qual uma língua ou comunidade junta vários elementos distintos sob a mesma categoria e dão a eles o mesmo rótulo, o mesmo nome, por exemplo, como consideramos, em português, que galinhas, águias e pinguins, apesar de toda a diferença entre si, são “aves”.

Em outros momentos, farei postagens sobre fenômenos semânticos específicos e sobre algumas dessas teorias citadas acima.

OUTRO TIPO DE SEMÂNTICA LEXICAL

Os exemplos acima não esgotam todas as teorias linguísticas que lidam com o significado, mas há ainda um outro tipo de Semântica Lexical que é bem diferente das citadas acima, que tem um perfil particular. Ela é lexical, mas possui um pé dentro da área dos estudos sintáticos. Vou falar sobre esse outro tipo de semântica lexical em outra postagem. Aguarde.