Semântica lexical (parte 2) – um pé na sintaxe

No texto anterior, falamos sobre o que é Semântica lexical. Esta pode ser o nome de uma área de estudos ou o nome de alguma teoria específica que lida com essa área. A característica principal dessa área de estudos é focar na descrição e análise de propriedades do significado das palavras, do vocabulário (léxico) de uma língua.

Vimos também brevemente alguns exemplos de teorias semântico lexicais, mas terminamos apontando que há outro tipo de estudo que também recebe o nome de Semântica lexical, mas que difere em muitas coisas dos outros estudos. E é disso que tratamos agora.

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Léxico, semântica e sintaxe

O que diferencia essa outra abordagem semântico-lexical é o fato de ela não se limitar apenas ao léxico e ao significado, mas ter uma relação com a sintaxe. Ou seja, trata-se de um tipo de Semântica lexical que é voltado para examinar como o significado das palavras determina aspectos da sintaxe das línguas humanas. Ou seja, como a ordem e a estrutura da sentença é determinada pelo significado das palavras contidas nela.

Por isso, essa abordagem recebe o nome de “Semântica Lexical” ou de “Interface entre sintaxe e semântica“.

Um tipo de fenômeno que exemplifica essa abordagem é a análise dos papéis  temáticos, que correspondem às funções semânticas exercidas pelor argumentos de um predicador, como o verbo. Há verbos que selecionam agentes e pacientes (ex: “João bateu em Pedro“), mas há outros verbos que selecionam argumentos com valores semânticos distintos, como experienciadores (“Maria gosta de João”), locativos (“ele mora em Curitiba“) etc. Essas diferenças na seleção dos argumentos é determinada pelas propriedades semânticas do verbo selecionador: um verbo com “gostar” não é compatível com um agente, mas apenas com um experienciador.

Outro exemplo de fenômeno na interface entre o léxico e a sintaxe são os casos de alternâncias verbais, como em “João quebrou os vasos” e “Os vasos quebraram“, em que há alteração sistemática no número de argumentos do verbo. Isso ocorre de modo regular com vários verbos como “quebrar”, “abrir”, “fechar”, mas não ocorre com diversos outros, como “ver”, “matar” (ou seja, não dá para fazer “O ladrão viu” a partir de “João viu o ladrão“, mantendo a interpretação de que “o ladrão foi visto“). A ideia, nesse caso, é que essas possibilidades e impossibilidades de alternância resultam de propriedades semânticas do verbo e dos argumentos selecionados. Por exemplo, uma hipótese possível e plausível (mas não a única) que isso decorra dos papéis temáticos que um verbo requer: verbos que pedem determinados papéis temáticos são compatíveis com determinadas alternâncias no número de argumentos e verbos que pedem outros papéis temáticos são compatíveis com outras alternâncias, etc. Em suma, propriedades semânticas determinando a sintaxe.