A idolatria à palavra “Ministério”

Como os países lidam com seus problemas? Digamos que, de repente, haja uma epidemia de… ahn… unha encravada na população. Em países mentalmente saudáveis, o governante usaria as estruturas administrativas já existentes para resolver o problema: o Ministério da Comunicação, se houver, para promover algumas campanhas de informação sobre o problema; o Ministério da Saúde para planejar algumas ações para reduzir a escala do problema. Se a situação fosse muito grave, o Ministério da Saúde poderia até criar um programa ou secretaria temporária para lidar com a questão.

Ah, mas isso é em países normais. Na República Federativa da Banânia, a coisa é bem diferente. A primeira e mais forte tendência de todo governante é criar imediatamente o Ministério da Unha Encravada. Destinar um orçamento permanente para a nova pasta. Conceder ao seu ministro Foro Privilegiado. Preencher dezenas de cargos de assessoria com aliados políticos do governante e do ministro. Realizar vários concursos públicos para prover funcionários para o novo órgão. Realizar licitação para a aquisição de carros de luxo para o transporte dos funcionários. E assim, quinze anos e onze bilhões de contos de réis depois, o Ministério da Unha Encravada ainda estaria lá como parte da estrutura perpétua do Estado, promovendo a justiça pedal para todos!

Mas eis que, vinte anos depois, é possível que um novo presidente olhe para tal ministério e pense: “Mas esse ministério tem poucas responsabilidades em comparação com os demais. Acho que ele poderia ser absorvido pelo Ministério da Saúde, sem prejuízo de suas funções. E ainda economizaríamos uma graninha dos impostos do povo.

 

O que aconteceria diante de tal iniciativa ousada de um presidente? Novamente, em um país mentalmente saudável, imediatamente os intelectuais diriam: “Ok, vamos examinar com calma a questão para ver se é realmente imprescindível a existência desse ministério ou se ele pode ser incorporado a outro.

Mas repito: isso é o que aconteceria em país normal. Em Banânia, os intelectuais estão ocupados demais promovendo a revolução para se preocuparem com essas bobagens burguesas como vida intelectual, verdade, ponderação, razão e responsabilidade com o dinheiro público.

Em Banânia, a reação imediata e estridente da maioria dos intelectuais é denunciar o terrível crime que estaria sendo cometido. Eles acusariam o governante de odiar os pés dos pobres! De espalhar o chulé pelas classes baixas! De querer que as pessoas percam seus pés devido à falta de higiene! De tentar fazer com que os podólogos morram de fome! De perseguição a quem tem fetiche sexual por pés! E de tentar instalar o sapatismo no país!

Isso acontece por vários motivos. Um deles é porque Banânia é um país laico. E como todo país laico, Banânia possui uma infinidade de deuses inventados pelos intelectuais, os profetas que devem liderar o povo à utopia onde mana leite e mel. Alguns dos deuses mais importantes da República Federativa de Banânia são os Ministérios, que ocuparam o lugar das antigas Musas das religiões clássicas. Parte essencial da atividade religiosa dos intelectuais laicos bananísticos é prestar culto e realizar sacrifícios humanos (ou seja, de carreiras humanas) aos deuses Ministérios, mais especificamente ao nome dos deuses dos Ministérios.

Arrependei-vos e crede no Ministério da Verdade e da Justiça Social!

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